Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

MOTOSIERRA - Entrevista

Entrevista: Motosierra
Terça-feira, 7 de Outubro de 2008 (1:46:44)


A banda uruguaia Motosierra foi a mais turbinada, sexy e deliciosa do festival MADA 2008.  O vocalista Marcos literalmente se joga em cada um de seus shows – o homem respira música, respira rock. Confira a entrevista. Por Olga Costa


Entrevista
MOTOSIERRA

Olga Costa


"No início ele se machucou de verdade. A falta de experiência e a vontade de literalmente se jogar levaram o vocalista da banda uruguaia Motosierra a começar a prestar mais atenção nas loucuras que chegavam à sua mente na hora de uma apresentação. Se há receio em alguém na platéia por conta de suas peripécias e que Marcos saia machucado do palco, para ele passa distante qualquer medo - tudo é rock’n’roll.  O homem respira música, respira rock. Depois do show no MADA 2008, Marcos falou ao PRP com prazer e tranqüilidade sobre sua trajetória, que se confunde com a do Motosierra."

O que deu início a sua jornada com a música e o que o manteve até hoje na estrada?
Foi uma coisa natural. Acho que aos treze anos me dei conta disso. Quando acabou a ditadura no Uruguai e começou a democracia em 1985, foi quando ouvi o punk rock, toda aquela cultura punk. Fugi de casa para ir aos dois dias do festival El Montierro, onde assisti várias bandas como Legião Urbana, muitas bandas do Uruguai, Paralamas do Sucesso e Sumo (banda da Argentina). Desse momento em diante nunca deixei de ter contato com o rock. Nunca parei. Foi uma coisa natural. É isso que sou, sabe, não posso sair da frente dessa coisa que é minha vida. Eu escolhi isso para mim.

Qual disco lhe causou grande impacto ao ouvir?
O do Guns N’Roses [Appetite For Destruction]. Teve alguns momentos... Eu tinha 15 anos quando ouvi... Também quando ouvi o Nevermind, do Nirvana. Era uma quinta-feira à noite, quando liguei a televisão e ouvi "Smells Like Teen Spirit" e pensei: "Que porra é isso?!". Quando ouvi Ramones também... Mas o grande impacto foi quando ouvi no programa chamado "Tiempo de Saudade" e gravei numa fita cassete a música "Funhouse", dos Stooges. Eu já tinha ouvido falar do Iggy Pop, mas nunca tinha ouvido. Naquele dia fiquei escutando a música a tarde inteira. Depois liguei para um amigo, que era de uma banda chamada Bueno Muchachos, saímos à noite e quando entramos num clube estava tocando aquela música.

Logicamente isso aí acabou com a minha vida e comecei uma vida nova. Eu sei, todo mundo acha que sou "clone" do Iggy Pop – até porque eu tenho certa semelhança física... Nem tanto, vá, estou pesando 60 quilos atualmente (risos)... Não é que eu queira imitá-lo, eu não tento copiá-lo, simplesmente acho que passo pela mesma coisa... E lógico que eu gostaria de ser o Iggy Pop! Eu li a biografia dele, legal, mudou minha vida, mas seria muito idiota de minha parte tentar copiar. Acho que temos algo em comum...
 
Você viu algum show do Iggy?
No último show dos Ramones na Argentina, eu vi o Iggy Pop. Não cheguei a ver os Stooges. Quando entrei no Motosierra, a banda já estava formada. Naquela época eu não acreditava que nenhuma outra banda iria mais me surpreender. Então fui chamado para ser o vocalista e o baixista me deu uma fita com um monte de bandas que queria tomar como referência e ali estava Turbonegro – que eu não conhecia. E daí eu voltei a acreditar que podem existir bandas boas. Essa foi a minha formação musical. Outra coisa muito importante foi ter visto o show de uma banda chamada Chicos Elétricos, de onde saiu o primeiro baixista do Motosierra. Foi o Chico Elétricos que mudou meu conceito de shows, eles eram selvagens, não estavam nem aí.
 
Durante o show do Motosierra, comentaram que você lembrava o Axl Rose no palco (risos)...
Também falam que me pareço com o Mick Jagger... No palco a minha performance flui naturalmente. Tenho visto muitos vídeos de bandas ao vivo. Quando subo no palco eu crio um personagem e tudo acontece naturalmente. Eu não penso no que vou fazer. Acho que você tem que saber do que está falando. Tem que se interessar, procurar informação, ter paixão por tudo isso...

Você passa estar se divertindo com o que faz...
E estou mesmo! Eu não posso passar que estou gostando quando não estou gostando. Hoje eu não gosto mais dos shows de bandas que tenho visto ultimamente. Fico chateado. Eu costumava ir a muitos shows. Eu já vi muita coisa. vi muita coisa em um momento difícil, pós-ditadura no Uruguai. Eu fiquei um pouco exigente. Tem muita banda "fake" no mundo.
 
O Motosierra faz o que se chamava nos anos 90 de "crossover"...
Se fossemos situar o Motosierra no tempo, seria uma banda dos anos a-gente-faz-o-que-gosta. A nossa música tem algo de baixo astral, as letras são meio violentas e atitude raivosa demais, mas também tem muito senso de humor. Somos muito amigos, o baixista é meu amigo há 15 anos. Temos uma união que não existe em toda banda e isso faz com que a gente continue. Eu agradeço ao MADA e a todos vocês porque foi uma nova oportunidade para a banda continuar tocando. Eu estou aqui, o baterista no Uruguai, o guitarrista na Espanha. Eu sempre irei tocar em outros locais, com outras pessoas, mas minha banda é o Motosierra. A banda está fragmentada. É um momento difícil. 
 
Mesmo assim, vocês passaram um entusiasmo enorme...
Eu sei que não sou o melhor vocalista do mundo, pra começar, eu não sei cantar, eu só grito! Quando falam que o Motosierra é gritaria, é isso mesmo, é gritaria! É só gritaria. Eu só grito. A música me leva a isso, eu perco a noção de tudo e me entrego à música. Os músicos são bons mas não têm técnica, mas conhecemos muito de música. Quando tocamos somos a melhor banda do mundo. A minha frustração é não poder ver o Motosierra ao vivo. Não posso sair. Sério! Eu gosto de integrar, gosto de estar no público. Eu sei que a música da banda assusta um pouco. Mas eu estou num momento muito feliz, eu saí do Uruguai, que para mim era muito deprê. Eu sou encarregado de fazer a ponte entre a platéia e a música. Se estiver deprê isso vai ser transmitido, se estiver feliz, também.

Como é o seu processo de compor? Você toca algum instrumento?

Toco um pouco de guitarra e baixo. Eu já toquei baixo numa banda que tinha no Uruguai, meio piada, de rockabilly.
 
Rockabilly?!
Eu gosto muito de rockabilly. No momento o processo da banda está interrompido. Quando o primeiro baixista saiu da banda, logo depois eu mudei para o Brasil e paramos com o processo construtivo. Mas sempre nos reuníamos para compor. Eu assumo o papel de diretor nessa hora da construção. Eu não gosto de tocar sozinho. Gosto de reunir todos, tomar cerveja. Todo mundo compõe na banda, é um trabalho de equipe. Agora, as letras são todas minhas. A melodia da música me leva a uma situação "x" e daí eu escrevo a letra.
 
Depois de estruturar toda a música é que você escreve a letra?
Isso. Dentro do clima que a música gera em mim naquele momento. Não costumo falar na primeira pessoa, mas é a sensação que prevalece na hora de escrever.

Você tem preferência por compor em inglês ou espanhol?
Quando a banda começou no Uruguai e não tivemos nenhum reconhecimento de imediato, cantar em inglês era a opção para mostrar nosso trabalho fora do país. Claro, que pelo fato de morar no Uruguai, a maioria das músicas eram em espanhol, que tem um jeito mais fácil de funcionar na música, já o português, me desculpe, eu acho muito difícil...
 
No caso de vocês, não existe uma diferença sonora se compararmos as músicas nos dois idiomas...
Isso é porque a música da banda é barulhenta. Porque não sei cantar e grito, então, isso tudo junto soa como um liquidificador, por isso nos chamamos Motosierra [imita som de motor ligado]. O primeiro nome da banda era Satanás, era uma piada, mas não durou uma semana. Quando fomos tocar num bar disseram que tínhamos que mudar o nome para tocar e daí mudamos para Motosierra.
 
O que te inspira na hora de fazer as letras?
Eu gosto muito de cinema. Eu estudei Comunicação e dirigi alguns curtas no Uruguai, tenho paixão por cinema. Eu vivencio situações cinematográficas, gosto de personagens. E tem situações no cinema que acho semelhantes ao rock´n´roll, além da música e imagem estarem bem ligados. Gosto de ler Bukowski também.
 
A referência ao cinema está diretamente ligada ao fato de você não cantar na primeira pessoa, de criar personagens?
Pode ser. Eu tento contar uma história. Tento não me colocar na situação. É meio perigoso levar a coisa ao extremo, eu passei por uma fase assim. Acho que tenho que entrar e sair, sem o perigo de misturar as coisas. Estão lançando um filme sobre o Darby Crash, do Germs, que é um exemplo disso [What We Do Is Secret]. Eu comecei a pensar sobre isso. Por que só agora um filme sobre o Germs? Posso estar errado, mas deveria ter saído no início dos anos 90, junto com o grunge, era mais coerente. Fiquei interessado no filme, o diretor levou dez anos para finalizar. Será que vai acontecer o mesmo que rolou quando saiu o filme sobre o Doors, do Oliver Stone, vão sair fazendo o Darby Crash pelas ruas? (risos)

Não, não acredito...
Mas é um problema do diretor do filme, do artista. Eu não sou artista, eu faço rock.
 
Que distinção você faz? Você faz música, música é arte!
Não, eu faço rock´n´roll...
 
Rock´n´roll é arte!
O artista tem um nível, eu sou da rua, sabe?
 
E os grafiteiros? São da rua também...
Eu sempre vou ser público. Eu nunca quis ser artista. Eu sempre quis fazer rock´n´roll.

OK, você está considerando a diferença que se estabelece entre alguém comum e o artista...
Acho que tem que ter humildade. Nós somos considerados durões, malucões, mas temos uma vida, uma família. O guitarrista tem filhos. Eu faço a comida, lavo a louça, vou ao cinema. Eu faço muita coisa de momento. Nos nossos shows eu nunca sei o que vai acontecer. Foi perigoso no começo da banda porque eu não sabia controlar toda a minha energia, não tinha domínio do palco, eu me feri várias vezes. Agora eu já sei como fazer, mas eu nunca sei o que vai acontecer, acaba sendo uma surpresa para mim mesmo.
 
Não sabia que vocês cantavam músicas do Kiss (“Rock´N´Roll All Nite”). Sabia que cantavam Sonics, Sex Pistols, para mim foi uma surpresa!
Mas sabe qual era a música que íamos tocar? "Crazy Train"!
 
Do Ozzy? Que legal!
Mas não estava bem ensaiada e tocamos a do Kiss. Nos nossos últimos shows no Uruguai estávamos tocando "Boy´s Don´t Cry", do Cure, imagina? A gente dá risada. Não gosto de ficar rotulado, imóvel. Eu gosto de liberdade!
 
A platéia costuma te influenciar?
Ontem [MADA, 2008] por exemplo, foi um público diferente...
 
Na hora de "Somebody to Fuck" algumas pessoas na frente do palco cantaram...
É, eu vi. Fiquei surpreso com isso. No Uruguai foi muito difícil criar um público mínimo. O Uruguai é um país muito contra o que a gente faz, muito contra. E foi muito difícil formar um público, tivemos que aprender a tocar sem nos importar com público. Logo no início criamos uma reação negativa nas pessoas e daí aprendemos a nos desligar do público. Depois de quatro, cinco anos é que percebemos que tínhamos criado frutos, que havia pessoas que gostavam da banda e que tínhamos formado um público fiel. Imagine tentar viver com um público máximo de 500 pessoas e saber que não íamos aumentar isso. Estamos muito orgulhosos de ter criado, não só no Uruguai, mas na Argentina também, um pouco, uma atitude nova de se autoquestionar, de inaugurar uma ponte entre Brasil, Argentina e Uruguai. Inclusive eu estou muito feliz, muito agradecido. Eu era um garoto que morava num subúrbio, isolado, sem ninguém que gostasse de rock´n´roll, e eu acreditava que ia chegar a algum lugar, mesmo hoje com a banda fragmentada, nós conseguimos chegar aqui e tocar com meus velhos amigos, amo todos eles. Isso é a confirmação de que estava certo em acreditar.

http://www.myspace.com/motosierra


publicado por Ed Punk&Destroy às 15:30
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