Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

Greg Graffin

Editorial: Epítome Punk
Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008 (0:01:50)

 

 

”Recebi uma carta de um punk que afirmou que era fã do Bad Religion. Era, isto é, até nós o decepcionarmos lançando nossos dois últimos discos, os quais não se encaixaram em sua definição de punk.

 

Não havia nenhuma música contra o sistema, ele alegou (o que não é verdade, a propósito), então 'como você pode chamar isso de Bad Religion? De fato, como vocês podem se chamar de punks?'”


Por Greg Graffin/ Bad Religion

 

 

 

EPÍTOME PUNK

A Details (7/96) intitulou de "Anarchy in the 10th Grade" (“Anarquia em décimo grau”)

Por Greg Graffin

"Ele continuou a afirmar que nós não sabemos nada sobre o que é ser punk porque 'estamos muito longe disso'. Ele estava claramente com raiva e intolerante com o que nossas músicas recentes tinham a dizer. Ele acreditava que a santidade do punk havia sido infringida de alguma forma pelos nossos dois últimos discos (mas ele também declarou que nossos sete discos anteriores também eram culpados de tal traição).

No mesmo dia, abordei uma pessoa na rua na cidade em que eu moro e ela me reconheceu como vocalista do Bad Religion. Assim como o cara que me mandou a carta, ele também era punk, mas não estava com raiva ou me julgando. Nós conversamos um pouco e ele falou sobre como hoje em dia cada vez mais jovens em geral estão hostis e estranhos e não querem ouvir ninguém mais além de seus confortáveis círculos de amizade.  E em como as pessoas parecem estar motivadas atualmente por uma força invisível de mente fechada. Seu desejo aberto por opinião e seu foco em assuntos relevantes tinham frescor e lembrei-me de todas as coisas legais a respeito dos punks com quem eu cresci e com que ainda interajo hoje: abertos, inclusivos, despretensiosos e não arrogantes e dispostos a confrontarem pessoas ou instituições que parecem injustas ou falsas. Ao invés de estarmos preocupados em estabelecer uma instituição que poderia excluir outros, nós estávamos interessados em incluir pessoas que se sentem deixadas de lado ou desiludidas com seu círculo social.

Naquele dia, eu vivenciei uma das melhores coisas sobre o punk - os traços mostrados pelo garoto na rua - e a pior coisa -  o pensamento negativo, egoísta, dogmático do garoto que escreveu a carta. Ambos se auto-intitulavam punks e eram de pólos ideológicos opostos. Há 16 anos sou membro dessa estranha subcultura e eu percebi que existem facções liberais e conservadoras. Nesse sentido, é um microcosmo de sociedade em geral. É uma tarefa insana tentar definir o punk universalmente. Seus significados são confundidos em todo lugar por circunstâncias contextuais.  Uma garota de 16 anos de uma família rica e religiosa que vai à igreja todo domingo, com seu moicano verde e uma camiseta escrito ‘Fuck Jesus’ é punk. Mas é também punk um professor de biologia de 42 anos que alega que as idéias de Charles Darwin estavam erradas.  Nenhumas das pessoas ouviram falar ou se conhecem e nem freqüentam o mesmo clube underground. Mas suas lutas para estabelecerem instituições e reações ao pensamento dogmático as une espiritualmente. Se isso é genético ou ensinado, não sabemos. Mas eu também sinto carinho por todos que compartilham desses traços. Eu não me sinto conectado com aqueles que são exclusivistas, elitistas e que pensam que seu modo de vida é um modelo de como os outros devem viver. Minha filosofia foi feita pelo pensamento aberto de meus pais é claro, mas também através da desordem que eu vivenciei enquanto crescia. Enquanto eu percebia que muitas crianças sofreram mais do que eu, encontrei muita gente que se auto-intitulava punk e que tiveram experiências parecidas com as minhas.

Em 1976, aos 11 anos, eu me mudei com minha mãe e meu irmão para San Fernando Valley, em Los Angeles. Como milhões de outras vítimas de divórcio nos anos 70, eu tive que lidar com o fato de que meu pai estava vivendo longe (em Racine, Wisconsin) e eu não o veria tanto quanto as outras crianças vêem os seus. Essa dor misturava-se com a alienação desnorteante que sentia, sendo um garoto de Wisconsin num colégio de Los Angeles. Eu havia entrado num ambiente diferente de tudo que havia vivenciado até os 11 anos. Eu tinha um cabelo fino, castanho escuro, escorrido, impossível de pentear num estilo rock and roll dos anos 70, que era tão popular. Usava camisas de veludo do K-Mart, e calças de tecido porque eram mais baratas do que jeans e nós não tínhamos muito dinheiro.  Eu tinha sapatos vagabundos, geralmente do K-Mart ou Payless, com uns logos idiotas que imitavam as marcas populares que as outras crianças usavam. 

Eu tinha um skate de plástico azul com rodas barulhentas, totalmente fora dos padrões das pistas de skate tão populares no sudeste da Califórnia.  Eu nunca tinha ido à praia e achava que era somente um lugar para ir nadar e não um modo de vida. As pessoas me perguntavam, ‘cara você se diverte?’  Eu pensava em nossas festas de aniversário em Racine. Nós ficávamos acordados até depois da meia-noite e tomávamos sorvete e refrigerante, mas fora isso, não tinha muita experiência em festas. Levei seis meses para entender que festa era sinônimo de ficar doidão.

Eu vi um cara ir para aula com olhos pequenos e um sorriso eufórico de maconha (no início eu não sabia que cheiro era aquele). Os colegas de escola tinham projetos secretos que falavam somente quando o professor, Mr. Feers, saía para fumar um cigarro. O trabalho deles consistia em fazer cilindros de poliuretano, selados no fundo, areados suavemente no topo e com alguns buracos de 1/4 polegadas feitos rapidamente na máquina de furar papel. Eu ficava confuso quando me perguntavam ‘cara!....olha só meu  bongô, não é maneiro?’ Além de não saber o que era um bongô, não entendia o adjetivo usado para descrevê-lo e nem porque estava escondido. 

Tudo que sabia era que havia algum segredo estranho por trás daquilo e eu não era um dos que compartilhavam dessa informação. As crianças deslocavam-se na pirâmide social revelando seus conhecimentos sobre a cultura rock and roll e mostrando suas coleções de belezas negras, Quaaludes e maconha. Se você partilhasse dessas ofertas, você se tornaria um deles, um cara confiável. Se você ficasse com medo de dividir, você se tornava um perdedor de segunda classe. Em outras palavras, se você remasse a favor da maré, tranquilamente, sem questionar, você era aceito e recompensado em status social. Se você questionasse as regras ou se fosse contra de alguma forma, você ia de ladeira abaixo na escala social.  

Eu sucumbi à pressão. Incapaz de competir, ainda que sem vontade de desistir, fiquei amigo de uma classe particular de pessoas chamadas de “nerds”, “idiotas”, “bebezões” e “viadinhos”. Nós saíamos juntos e fazíamos coisas criativas depois da escola, mas o maior alívio para meu sofrimento veio da música.  Nós tínhamos um piano velho que eu dedilhava e cantava músicas antigas que aprendia de ouvido. Eu desejava ganhar uma identidade musical assim como meus colegas na escola, mas não estava inspirado com as bandas que eram a matéria-prima dessa cultura extinta: Led Zeppelin, Rush, Kiss, Journey, Foreigner, Styx, Ted Nugent, Bad Company, Lynard Skynard, entre muitos outros.

Felizmente, quando tinha uns 14 anos, eu descobri um programa de rádio nas noites de sábado e domingo que mostrava bandas de LA. Descobri a rádio, porque era a única em LA que tocava Todd Rundgren de vez em quando. Meu amigo de Wisconsin e eu crescemos ouvindo Todd e Utopia porque eles eram um rock melódico, mas de alguma forma menor do que o mainstream da música popular. Essas características ainda me atraem hoje em dia e frequentemente me levam a preferir certas bandas.  

Não posso exagerar a importância daquele programa de rádio no desenvolvimento de minha personalidade musical. Era chamado de Rodney on the Roq (na estação KROQ) e provou que existia toda uma comunidade aqui, na mesma cidade, que usava música para compartilhar suas alienações e confusões a respeito da cultura que a cercava. Também provava que você não precisava ser virtuoso ou contratado por uma grande gravadora para tocar por aí. As gravadoras atuais não faziam produções com grandes orçamentos. Frequentemente, Rodney simplesmente tocava fitas demo ou edições de acetato. Era incrivelmente simples e inspirador por sua simplicidade. 

Eu quis fazer parte dessa comunidade de músicos. A música era genuína e desesperada. Falava do sofrimento que vinha da pressão de se conformar e do peso que é colocado sobre nós pelos que estão no poder e da celebração de pertencer a uma comunidade de desajustados destemidos. Isso ainda era oferecido por uma variedade de bandas, de diferentes backgrounds. Eu virei punk com 15 anos. Cortei meu cabelo bem curto, pintei de preto e fazia minhas próprias camisas. Eu era bastante criativo e com o passar dos anos, compus músicas no piano junto com meus amigos, tocando panelas e frigideiras, usando gravadores baratos. Nós estávamos determinados a enviar uma fita para o Rodney no Roq. Mas antes de qualquer coisa se tornar real, fui apresentado por um amigo nerd a uns caras que se tornariam o Bad Religion.

Mas no fim do mesmo ano, 1980, eu tinha feito meu primeiro disco e Rodney o tocou. Normalmente, isso faria de qualquer pessoa um herói na escola, um artista autêntico como colega de classe! Mas meus colegas eram violentamente contrários a essa subcultura que estava surgindo. Não era o tipo de música que falava de sexo, drogas e rock-and-roll. Não era melódica e não inspirava as pessoas a ficarem doidonas. Eu era visto como um inimigo daquele modo de vida. Havia três de nós na escola que eram punks. E nós três apanhávamos de vez em quando por causa da nossa preferência musical.

Isso me assustava e ao mesmo tempo me fazia sentir poderoso. Percebi como a maioria dos conformistas são frágeis, como eles eram facilmente provocados até perderem o controle. Senti grande conforto na comunidade de outros punks, todos com histórias parecidas de opressão e abuso. Minha casa se tornou um local de encontro e nossa garagem era o lugar de ensaio (minha mãe era tranquila, mas também estava sempre trabalhando, então não havia intervenção de adultos). Eu comecei a sentir que havia uma forma de lidar com a desilusão do meu ambiente cultural.  Mas foi a partir de questionamentos e desafios e não de conformação e aceitação.

Esse ponto de vista provavelmente me fez mais perspicaz a respeito das relações sociais humanas e um melhor crítico; mas também me fez mais cínico e mais intolerante com os que não eram punks e portanto diminuiu minha capacidade de ter intimidade. Nós punks, estávamos unidos no que achávamos que era uma causa maior, nosso desejo de superar a pressão social. Era uma arrogância tácita que tínhamos, porque éramos todos tratados de forma parecida pela sociedade. A ênfase foi sempre no tumulto coletivo do nosso grupo e não nas questões individuais de cada um (havia muito mais músicas sobre ‘nós’, ‘nosso’ e depois sobre ‘eu’, ‘meu’). Talvez seja por isso que muitos dos meus amigos começaram a se drogar e alguns se mataram. Meus amigos punks não tentavam entender; nós somente tolerávamos.

Essa falha naturalmente se estendeu para os sexos.  Eu presumi que as garotas eram iguais em todos os níveis. Elas se vestiam de forma parecida, tinham os cabelos parecidos e até mesmo faziam a slam dance com os garotos. O sofrimento delas era nosso, ao menos me parecia. Eu nunca pensei que elas viam o movimento punk de uma perspectiva única. As questões femininas não estavam na nossa agenda de discussão. Ambos os sexos estavam muito ocupados sendo corajosos e firmes. Era maravilhosamente igual e eu era orgulhoso de minha visão igualitária dos sexos. Infelizmente, era somente uma desculpa para não falar das diferenças entre os sexos. Até hoje, sou bastante tolerante com a expressão feminina, mas tenho dificuldade em entender suas necessidades. E na época, eu e meus amigos falávamos de assuntos mundanos ou problemas mundiais e não em desejos pessoais ou sentimentos. Isso interferiu muito em várias relações de amizade e minou minha habilidade de ser um bom marido.  

Eu decidi fazer faculdade. Imaginei que seria um lugar onde vozes dissidentes seriam reconhecidas e louvadas. Essa visão romântica me atraiu. Eu adorava tocar com minha banda e contribuir para o desbravamento do mainstream de música popular, mas eu também queria mais. Eu senti uma urgência também em questões sociais, do que somente a cena musical e o estilo das pessoas. Eu imaginei que poderia tocar numa banda nos fins de semana e nas férias e poderia escrever sobre assuntos relevantes discutidos na universidade.

Mas percebo hoje, em retrospecto, que a universidade estava tão repleta de pressões ao conformismo quanto minha escola. Os estudantes eram recompensados por pensarem como o professor. Raramente os professores tentavam induzir idéias originais aos estudantes. Com mais freqüência nós éramos recompensados por regurgitarmos a mesma retórica nas provas, que eram mais os assuntos nacionais, em qualquer disciplina. 

Embora eu tivesse sorte o suficiente para encontrar três maravilhosos e inspiradores orientadores, que elogiaram minha originalidade e me fizeram sentir mais inteligente do que provavelmente sou, fiquei triste por haver tão poucos deles. Eu me tornei criticamente consciente de que a experiência universitária para a maioria dos estudantes era de doutrinamento do pensamento prescrito de uma sociedade privilegiada. Era uma receita do que era aceitável na sociedade. E em algum lugar em que essa socialização se processa, eles providenciavam um guia para reparar problemas de como lidar com formas alternativas de raciocínio. 

Consequentemente, minha graduação foi só um pouco melhor do que a maioria. Mas graças às recomendações e insistência de meus orientadores para que eu tivesse idéias de pesquisa originais, eu continuei e concluí o curso superior em Geologia. Fiz também um Ph.D. Ambos programas me ensinaram que a forma de ter sucesso na nossa sociedade é andar nessa linha frágil entre entender o dogma inerente à ideologia que prevalece e mostrar às pessoas que você tem suas próprias idéias, mas não está disposto a passar por cima de sua tolerância & originalidade, quando se tem um limite baixo de tolerância. 

No ano passado, fui privilegiado o suficiente para viajar mais do que a maioria das pessoas fazem numa vida inteira. Enquanto conhecia mais o mundo, percebi que em cada nível de sociedade e culturas existem professores que ditam como as pessoas devem se comportar e de uma forma ou de outra, controlam a liberdade de expressão das pessoas e de viverem uma vida feliz. Eu acho que é um presente do ser humano poder desafiar e confrontar esses princípios e partilhar novas maneiras de evocar a originalidade nos outros. Sou feliz por não ser um animal. 

Hoje em dia, tenho uma visão mais sofisticada dos meus arredores sociais. Eu tenho filhos, tenho uma casa, tenho seguro de saúde e tomo decisões financeiras. Meu insight no mundo vem de fontes diferentes: geologia, biologia molecular, música, viagens e paternidade. Essa pluralidade assegura minha individualidade. E aprender a ser um indivíduo foi o melhor presente que tive ao crescer como um punk. Tenho consciência dos estereótipos e tento não me encaixar neles. Nenhum geólogo que eu tenha conhecido tem conhecimento sobre a cena musical e da mesma forma, nenhum músico que eu conheço entende da história da Terra como eu. Tenho orgulho dessa singularidade imprevisível. 

Estranhamente, o punk está rapidamente se tornando mainstream. No ano passado, mais pessoas compraram discos punks, vídeos, camisas e ingressos para shows do que nunca antes. Como em qualquer situação capitalista, o mercado punk está vivenciando uma mudança para longe da idéia original da arte (ou produto), em direção à criação de uma crença ou doutrina acerca do mercado do produto. Por que as gravadoras iriam rotular-se como gravadoras punks? Por que elas estão vendendo estilo e construindo uma subcultura, ao invés de promover honestidade e criatividade de seus artistas. Esse é um triste padrão na indústria da música que ocorre tanto nos selos independentes quanto nas grandes gravadoras.

Portanto, não é de se estranhar que exista muita polícia punk por aí, monitorando se bandas como a nossa se encaixam no estereótipo e em suas visões dogmáticas de aceitabilidade. Elas exibem o mesmo comportamento dos clones acadêmicos que se graduam aos montes a cada ano, prontos para discriminar aqueles que desafiam suas ideologias ensinadas. A carta que eu recebi há duas semanas de um fã descontente, foi tristemente remanescente da perseguição que senti na escola dos doidões. É também um exemplo claro de como é fácil seguir a corrente e advogar sentimentos comuns e sem embasamento, os quais acabam me motivando a provocar ainda mais. “  

Texto de 1996 - e totalmente atual.

http://www.portalrockpress.com.br


publicado por Ed Punk&Destroy às 12:14
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